TEMÁTICAS TRATADAS AQUI

SÃO TANTOS OS TEMAS IMPORTANTES E INTERESSANTES NA ÁREA... SE NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2012 PROPUS UM RECORTE EM TORNO DA ALFABETIZAÇÃO/ LETRAMENTO, DE SETEMBRO 2012 A FEVEREIRO 2013 A QUESTÃO FOCAL FOI A PRIMEIRA INFÂNCIA. ASSIM SENDO, A PARTIR DE ENTÃO O PAPO VAI SER OUTRO... TECNOLOGIA E EDUCAÇÃO - PODE? APROVEITEM! =)



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sábado, 8 de dezembro de 2012

REVISITANDO E REALINHANDO O CURRÍCULO NO CICLO DA ALFABETIZAÇÃO

QUERID@S LEITOR@S.

COMO PERCEBEM, ESTOU MAIS DO QUE SUMIDA DO BLOG... O TRABALHO ESTÁ PUXADÍSSIMO, MAS HÁ CONQUISTAS TÃO IMPORTANTES QUE MERECEM SER PARTILHADAS AQUI. 

PARTICIPEI DA ELABORAÇÃO DA PROPOSTA DE REFORMULAÇÃO CURRICULAR PARA O CICLO DA ALFABETIZAÇÃO, COORDENANDO  O GT DE ARTE E EDUCAÇÃO FÍSICA. À FRENTE DESTA ORQUESTRA, A "MAESTRA" ARICÉLIA NASCIMENTO, QUE ONTEM ME ENVIA O EMAIL QUE PARTILHO COM TOD@S.

Amigas e amigos

Alegrias são para serem compartilhadas, assim aqui estou para dizer a vocês que ontem (6/12) vivi um dia extremamente significativo em minha carreira profissional neste Ministério da Educação, pois em audiência na Câmara de Educação Básica, no Conselho Nacional de Educação entregamos e apresentamos uma proposta contendo “Elementos Conceituais e Metodológicos para a definição dos Direitos e Objetivos de Aprendizagem e Desenvolvimento para o Ciclo de Alfabetização (1º, 2º e 3º) ano do Ensino Fundamental.”

A minha emoção está, também, no fato de que este documento, uma primeira versão, não foi gestado na solidão dos gabinetes do MEC, foi tecido, amorosa, respeitosa e comprometidamente em parceria e com a participação efetiva de diversas Universidades do nosso país; várias Secretarias de educação tanto Estaduais como Municipais; mais de 800 municípios; aproximadamente 3 mil professores diretamente atuantes no Ensino Fundamental (professores alfabetizadores, coordenadores pedagógicos, assessores, técnicos, gestores, professores formadores, professores especialistas das diferentes áreas do conhecimento); Conselhos estaduais e municipais de Educação; UNDIME e a partir da contribuição oriunda de 350 propostas  curriculares em vigor nos diferentes estados e municípios brasileiros. Consideramos esse espaço de construção coletiva e de representação democrática primordial, pois “Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.” (Paulo Freire).

É um primeiro passo de muitos outros, “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.” (Paulo Freire). Com essa certeza  aguardamos o posicionamento do CNE e a manifestação da sociedade educacional, por meio de audiências públicas que aquele Conselho realizará no primeiro semestre de 2013, para finalmente elaboramos a versão final do citado documento, com agenda para junho do referido ano.

Corroboro com o nosso Mestre Paulo Freire de que “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade.” Assim, preciso registrar que não se trata de um currículo mínimo ou básico, eu não coordenaria este trabalho se fosse com esta finalidade, o Brasil não precisa de um documento desta natureza, seria ferir a liberdade e um desrespeito a diversidade nacional. Mas não podemos cruzar os braços diante do analfabetismo e das desigualdades de acesso ao conhecimento escolar. Tenho a convicção de que precisamos assegurar a cada menina, a cada menino, a cada estudante do Ensino Fundamental o Direito a apropriação, ampliação e consolidação, quando a área permitir, a conhecimentos imprescindíveis para sua formação integral e cidadã, pois “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”
(Paulo Freire)
Contamos com cada um de vocês nesta bonita, complexa e importante tarefa!!!
Abraços amorosos
Aricélia

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

GT Fundamental Brasil – parte I


Embora o plano hoje fosse fazer uma postagem sobre os ambientes formativos, mais precisamente sobre as imagens visuais nos ambientes escolares, acho importante compartilhar a experiência que vivi (intensamente!) nos dias 15 e 16 passados, em Brasília/DF.

Fui convidada a fazer uma fala sobre a pesquisa que venho partilhando com vocês aqui no BLOG no VI GT Fundamental Brasil – Currículo e Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento para o Ciclo da Alfabetização, organizado pela Coordenação Geral do Ensino Fundamental (COEF), da Secretaria de Educação Básica (SEB) do Ministério da Educação (MEC). O objetivo era que eu fizesse um recorte sobre a “Consolidação do Ciclo da Alfabetização”: como o Ciclo está implantado no Brasil; que pontos se mostram mais positivamente instalados; que percursos ainda vão requerer mais atenção etc. O evento contou com representantes do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED) e das Secretarias Municipais de Educação das capitais; com as representações estaduais da União dos Dirigentes Municipais de Educação (UNDIMEs); pesquisadores e convidados, reunindo mais de 120 pessoas no Centro de Eventos e Treinamento da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Comércio, e pretendeu provocar um debate coletivo dessas diferentes vozes sobre currículo e direitos de aprendizagem e desenvolvimento para o Ciclo da  Alfabetização. 

Feita e desfeita a mesa oficial de abertura, Jacqueline Moll inaugurou a série de conferências com o tema “Educação Integral e o Ciclo da Alfabetização”, começando por apontar a realidade que todos gostaríamos de já ter superado: não estamos, ainda em 2012, garantindo igualdade de condições de acesso e permanência às crianças na Educação Básica – direito assegurado pela Constituição de 1988. Propõe que, para o enfrentamento desta questão, antes de tudo, mudemos nosso olhar para os meninas e meninos: que todos possam vê-la(o)s como sujeitos históricos, sociais e culturais de direito, cidadã(o)s plen(a)os de potências e saberes. Este olhar vai de encontro com o senso comum construído ao longo da história, que segrega e elimina do sistema as crianças mais vulneráveis, alimentando um perverso ciclo de exclusão social.

Jacqueline defende, então, que uma maior permanência na escola, com oferta de propostas dinâmicas, criativas e variadas, planejadas de forma a ampliar e qualificar as condições de acesso das crianças aos conhecimentos científicos, éticos e estéticos – como propõe o Programa Mais Educação (PME) – seja um dos movimentos que vão ao encontro do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC). No turno estendido/integral consolidado no PME, mais facilmente os diferentes campos de saber/ áreas de conhecimento se entrecruzam, formando um corpus mais orgânico, que busca atuar junto às crianças em sua inteireza, interferindo, inclusive, em seu rendimento escolar – não apenas porque também oferece às meninas e meninos atividades de apoio progressivo, mas em razão de estimular sua capacidade de resolver conflitos, as desafiar em suas outras potencialidades, fortalecer sua autoestima e seus laços identitários, entre outros aspectos.

Depois de Jacqueline, Telma Ferraz Leal falou sobre “Alfabetização como Direito de Aprendizagem”, destacando a pesquisa realizada que apontou grande influência da perspectiva sociointeracionista nos currículos analisados, sobretudo tendo Vygotsky como interlocutor privilegiado; bem como as teorias de gênero de Bakhtin; a perspectiva construtivista de Piaget e os estudos sobre a psicogênese da língua de Emília Ferreiro – e, ainda, Paulo Freire como marco inspirador de base. A análise dos dados também apontou a ênfase na apropriação do sistema alfabético de escrita, e o trabalho de leitura e produção de textos desde o início do Ciclo. As dimensões de oralidade foram menos evidenciadas nos documentos analisados, pois houve quem entendesse que isto não é necessário ser desenvolvido porque as crianças já sabem falar sua língua materna... L

Telma discorre sobre as tensões e os embates derivados destas diferentes concepções teóricas/conceituais vigentes nesta área; bem como os conflitos acerca dos objetos de ensino e as estratégias metodológicas que se desenvolvem no chão da escola. Defende que é preciso buscar consensos nacionais a fim de estabelecer princípios e parâmetros sobre os quais as políticas públicas possam se alicerçar – e que a noção de direitos é um ponto de partida.

A terceira conferência foi com Viviane Pinto, representante do INEP, mas acredito que melhor será dividir a postagem em partes, de forma que não fiquem muito longas... Acompanhem!!

Até a próxima 4f! =)  

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Abrindo o debate sobre o ambiente formativo na escola


O Projeto Político Pedagógico (PPP) de uma escola reflete sua identidade, isto é, seus modos de ser, agir, pensar e existir; suas finalidades e metas; objetivos e estratégias. Entendido assim, o PPP é composto por um conjunto de normas e princípios orientadores de suas ações cotidianas e, para que possa iluminar fielmente a diversidade de olhares e vozes da comunidade escolar, sua execução/ revisão deveria acolher a participação dos seus diferentes atores sociais: pais, crianças, professores, gestores, funcionários, comunidade circunvizinha. Se o objetivo maior da instituição escolar é favorecer a aprendizagem significativa das meninas e meninos que a frequentam, cabe ao PPP debruçar-se sobre estas expectativas de aprendizagem e traçar meios de as crianças aprenderem com toda a diversidade e adversidade presentes. Portanto, ao estruturarmos um programa de alfabetização/ letramento temos que ter em mente que a escola não é apartada da vida; e que sua função não se encerra nela mesma e, assim, nosso desafio como sistema/ rede de ensino e/ou como escola é sempre sublinhar a importância do conhecimento para a melhoria da vida dos sujeitos aprendizes.

Neste sentido, infraestrutura, recursos didáticos e formação de professores são alguns dos aspectos do PPP que merecem nossa especial atenção, e por isso, vou abordá-los mais detidamente aos poucos neste BLOG, de maneira separada... Começo, então, pela infraestrutura.

Se, como já mencionado, o PPP da escola deve traduzir sua identidade, uma vez que a escola assuma o Ciclo da Alfabetização, ela tem que se preocupar em estruturar e consolidar um ambiente formativo – e este implica, necessariamente, em um espaço acessível, inclusivo, com oferta quantitativa de material e equipamentos variados e de qualidade. Entretanto, é importante compreender que o ambiente formativo de uma escola não se esgota no material específico ofertado, mas passa pelo espaço físico, sua organização, o mobiliário, os materiais diversos – tudo isso compõe o ambiente escolar.

Vera Ireland coordenou uma pesquisa pelo MEC/UNESCO, que publicou em 2007, intitulada Repensando a escola: um estudo sobre os desafios de aprender, ler e escrever. Ela foi realizada em 2003 abrangendo todo território brasileiro, e apontou que as salas de aula não são descritas como locais atraentes às crianças. Isto ganha importância aqui, pois o Ciclo da Alfabetização, para ser bem implementado e consolidado, requer a estruturação de espaços físicos que viabilizem, tanto propostas individuais, quanto em pequenos e grandes grupos; de espaços que congreguem as diversas identidades infantis ali presentes, fomentando a percepção de pertencimento nas meninas e meninos da sala; de espaços que favoreçam o desenvolvimento da expressão autônoma e autoral de todos os sujeitos nele envolvidos em suas múltiplas linguagens – em outras palavras: espaços que se constituam em ambientes formativos e acessíveis.

Buscando esmiuçar melhor este trecho supracitado, começo abordando a questão do espaço em si. Quando focamos na esfera mais específica da alfabetização/ letramento, é quase senso comum apregoar que a criança deve estar, desde a mais tenra idade, imersa no mundo letrado. Mas que seria, afinal, este mundo letrado ou ambiente alfabetizador? Logo no início do BLOG, ainda em fevereiro, fiz um post sobre isso... Lembram?

Quando falo de ambiente alfabetizador, digo de um espaço que esteja impregnado do material impresso que nos envolve cotidianamente, explicitando a função social da escrita: desde livros de literatura, revistas em quadrinhos, jornal e bula de remédio, até painéis de propaganda, embalagens de produtos, etiquetas de roupas, ou multas de carro... As palavras e letras, textos em prosa e verso, estão espalhados em diversos suportes e veículos, e a todo o momento nos provocam, informam, escandalizam, emocionam, aproximam, entristecem, ensinam... Entre tantas outras possibilidades. Colocar a criança em estreito contato com o mundo da leitura é ampliar e qualificar seu acesso a todas as variadas formas de escrita.

E como temos visto isso traduzido nas práticas pedagógicas? Os espaços escolares estão repletos de mensagens visuais de caráter educativo/ pedagógico. Quando focamos na perspectiva da alfabetização/ letramento, deparamo-nos com os chamados Alfabetários e seus derivados: cartazes ou similares que mostram as letras ou encontros vocálicos, sílabas e palavras, ilustrados, ou não. Entendidos como recurso pedagógico importante para as crianças em seus processos de apropriação e produção da escrita, parecem estar incorporados de forma naturalizada às salas de aula. E todo elemento cultural que se quer transformar em natural deve ser aqui problematizado: serão estes alfabetários e seus derivados instrumentos de apoio, ou de fragmentação de aprendizagem, na medida em que isolam letras, sílabas, palavras ou encontros vocálicos e os descontextualizam de sua função social na escrita? Serão os alfabetários e seus derivados elementos de apoio, ou de reforço à cópia e ao reducionismo imagético, na medida em que trazem muitas ilustrações marcadamente estereotipadas, como mostram os exemplos a seguir?
 

 
 
 


Ou, ainda, será o alfabetário um elemento de apoio, ou veículo de ampliação de vocabulário descontextualizado? Em outras palavras, um cetáceo característico do Círculo Polar Ártico, como o narval, deve ser mote para as crianças aprenderem palavras com a letra "N"?
Estes exemplos acima, de alfabetários e seus derivados são, em sua maioria, adquiridos pelos professores por “vendedores ambulantes” que vão às escolas, ou ainda em revistas “educativas” vendidas em bancas de jornal.

Na realidade, não é o alfabetário por si que é bom ou ruim; mas, sobretudo, a forma como ele é estruturado e o uso que se faz dele. Vejamos os exemplos abaixo, de alfabetários construídos coletivamente através de palavras, imagens, fotos, nomes de meninos e meninas da turma, e rótulos escolhidos pelas próprias crianças, alunas da EMEF Guido A. Lermen, em Lajeado (RS)...

 

... e outro criado a partir dos nomes das meninas e meninos alunos de uma turma da EM Said Albeny, em Coronel Fabriciano (MG), que fizeram seus próprios autoretratos:
 

A pergunta que se faz pertinente seria: o que as escolas estão disponibilizando em seus ambientes para ampliar e qualificar o universo letrado das crianças do Ciclo da Alfabetização?

Na próxima 4f continuamos esta discussão ainda pela identidade visual das paredes escolares, ok? Aproveitem para dar seus depoimentos e opiniões sobre esse assunto! =)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Pensando de forma mais ampla a implementação do Ciclo da Alfabetização...


A intenção deste post é fechar a tríade de reflexões sobre o conceito de Ciclo da Alfabetização. Isso porque é sabido que não basta “implantar” o Ciclo da Alfabetização – esta implantação, para se consolidar qualitativamente, requer adaptações: tanto derivadas do fato de o ensino de 9 anos trazer para o EF as crianças de 6 anos, quanto pela razão de o Ciclo requerer mais flexibilidade das propostas pedagógicas, com atividades diversificadas e/ou projetos, o que implica em adaptações no espaço físico, no mobiliário, e ainda na aquisição de materiais pedagógicos, livros e jogos para as salas de aula e para a escola em geral.

Entendo que se deva tomar como ponto de partida uma perspectiva mais ampla e orgânica de que o Ciclo da Alfabetização corresponde ao trabalho desenvolvido formalmente nos 3 primeiros anos do EF, de forma contínua e progressiva, sem retenção das crianças, de maneira a dar-lhes mais tempo para solidificar seus processos de apropriação e produção de conhecimentos, sobretudo no que tange ao domínio da escrita alfabética e ao letramento, isto é, ao uso reflexivo das linguagens oral, gráfica e escrita em seus diferentes gêneros textuais. O trabalho no Ciclo da Alfabetização, então, pressupõe um investimento nas crianças em suas singularidades e a valorização dos seus diferentes saberes prévios e, consequentemente, requer um currículo que respeite sua diversidade e pluralidade culturais – currículo este que deve ser dinamizado através de propostas de organização de espaços&tempos que abarcam metodologias que se sustentam na possibilidade de atividades diferenciadas ocorrendo simultaneamente nas turmas; da oferta em quantidade de material escrito de qualidade; de avaliações variadas e permanentes, de caráter diagnóstico e descritivo, que possam gerar ações voltadas à superação de obstáculos percebidos; de espaços físicos que viabilizem, tanto propostas individuais, quanto em pequenos e grandes grupos; de espaços que congreguem as diversas identidades infantis ali presentes, fomentando a percepção de pertencimento nas meninas e meninos da sala; de espaços que favoreçam o desenvolvimento da expressão autônoma e autoral de todos os sujeitos nele envolvidos em suas múltiplas linguagens; de planejamentos dinâmicos e interdisciplinares, elaborados coletivamente com alunos e professores de todas as turmas do Ciclo da Alfabetização, de forma a assegurar a organicidade do processo.

Ainda, sobretudo pelo fato de o 1º ano do EF receber crianças de 6 anos, torna-se imprescindível que o trabalho desenvolvido no Ciclo da Alfabetização valorize o lúdico, o jogo, a brincadeira, a imaginação e a fantasia infantis, bem como as diversas formas expressivas da Arte.

Por fim, faz-se necessário que os professores que atuam no Ciclo da Alfabetização possam ter amplo acesso à formação permanente, principalmente sobre: do conceito de Ciclo; da problematização acerca da cultura da repetência; do desenvolvimento infantil nesta faixa etária; da necessidade da ludicidade nos processos pedagógicos; das propostas metodológicas de alfabetização / letramento e seus respectivos arcabouços teóricos, incluindo instrumentos e métodos de avaliação; propostas metodológicas que privilegiem a criação inédita e pessoal de cada criança em suas diferentes linguagens; e ainda oportunizando o desenvolvimento autoral de sua própria expressão escrita, entre outros aspectos.

O processo de implantação do Ciclo da Alfabetização assim compreendido acaba por deflagrar a busca por alternativas – na maioria das vezes já disponíveis – que favoreçam soluções para a melhoria do desempenho das crianças: caminho oposto àquele que se alicerçava na anteriormente instaurada cultura da repetência, na qual o desinvestimento no aluno era maior e mais explícito.

Somente tendo atendidas estas e outras diferentes variáveis podemos acreditar que seremos capazes de cumprir a meta-compromisso de alfabetizar/ letrar todas as crianças do Brasil até seus 8 anos de idade.
Isso posto, proponho: que tal comentarem e partimos para discutir questões referentes ao espaço físico a partir da próxima semana? Até lá!! =))

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ainda explorando uma dimensão conceitual do Ciclo: progressão continuada X aprovação automática


As consequências de uma não compreensão do que seja o Ciclo da Alfabetização em sua dimensão mais ampla, sobretudo por parte dos municípios que já o adotam, são complexas, fragilizam sua consolidação e, principalmente, prejudicam as crianças. O conceito de Ciclo da Alfabetização, retratado nos três diferentes questionários e nas visitas in loco feitas para a pesquisa, ainda está muito reduzido à não retenção nos três primeiros anos do EF – sem qualquer mudança na estrutura curricular, de planejamento, nos sistemas de avaliação, nas práticas pedagógicas de sala de aula etc. Assim, crianças que apresentem algum nível de dificuldade não recebem qualquer tipo de apoio ou incentivo diferenciado e, com isso, vão sendo deixadas para trás, segregadas, desacreditadas, até serem reprovadas – não mais no 2º ou no 1º anos, mas no 3º ano. É essa simplificação conceitual a respeito do Ciclo da Alfabetização que faz com que tantos municípios confundam o princípio da progressão continuada inerente ao Ciclo, com a ideia já ultrapassada e questionada de aprovação automática.

A ideia de Ciclo da Alfabetização passa por despertar as escolas para sua missão de apostar e acreditar na potencialidade de cada menino e menina ali inseridos, entendendo-os como sujeitos em permanente processo de aprendizagem – em outras palavras: para o sucesso do Ciclo da Alfabetização, faz-se necessário entender que o foco precisa sair do conteúdo em si, para que o protagonismo seja exercido pela criança e seus processos de apropriação e produção de conhecimentos.

Por outro lado, é também digno de nota que se não enfrentados os desafios de auxiliar as crianças em suas necessidades e/ou se professores e gestores não se comprometerem com o crescimento de cada criança, como já mencionado anteriormente, cria-se apenas o adiamento de um problema: a reprovação sairá do 1º para o 3º ano do EF. Isso mostra que a organização do Ciclo da Alfabetização, envolvendo os três primeiros anos do EF, se ficar reduzida apenas à não retenção, não alterará a qualidade da aprendizagem e, consequentemente, não favorecerá a meta de alfabetizar / letrar todas as crianças do Brasil até seus 8 anos de idade. A não retenção deveria ser entendida como uma consequência do princípio da continuidade no processo educativo, do respeito ao ritmo de cada criança e, fundamentalmente, do protagonismo infantil na escola.

Reforço que é importante ter clareza de que o sucesso no processo de alfabetização/ letramento requer uma multiplicidade de ações interdependentes que passam pela oferta de: ambiente alfabetizador; propostas lúdicas e variadas; atividades desafiadoras e criativas; espaços e materiais que ofereçam condições adequadas de aprendizagem; oportunidades de apoio no contraturno escolar e de atendimento especial, quando necessário; professores não apenas capacitados e comprometidos com a proposta mas, sobretudo, certos da potencialidade das crianças; entre outros. Além disso, as escolas devem buscar parceria e cumplicidade junto às famílias, procurando conhecer suas realidades, e partir delas para a ampliação do universo vivencial das crianças; e investir em equipe gestora não apenas capacitada pedagogicamente, mas também em gestão, de maneira a conseguir efetivar parcerias com as diferentes instâncias governamentais e com a sociedade civil, em prol do aprendizado das crianças, mantendo boas condições de trabalho e diálogo com professores, funcionários, pais, alunos e demais membros da comunidade circunvizinha.

Que tal se posicionar sobre isso nos “comentários”?! E, aí, na próxima semana, darei continuidade a este tema: o que envolve o sucesso na consolidação do Ciclo da Alfabetização?

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Revisitando um conceito importante: o Ciclo da Alfabetização


A ideia é que as postagens, a partir de agora, debrucem-se sobre os resultados apontados na pesquisa realizada. De acordo com a amostragem trabalhada, poder-se-ia inferir que o Ciclo da Alfabetização está presente em cerca de 65% do território nacional. Sob o ponto de vista da divisão regional, destaca-se a implantação do Ciclo da Alfabetização nas Regiões SE e NE, respectivemente com 75,6% e 72,5% de adoção. Na Região CO o Ciclo da Alfabetização foi implantado em 50% dos municípios respondentes – próximo à taxa apresentada da Região S, de 57,3%. Apenas a Região N ainda tem maioria de municípios sem Ciclo da Alfabetização, uma vez que apenas 39,5% dos respondentes adota o Ciclo. Mas surpreendente foi que mais de 18% do total de municípios que não têm Ciclo pensavam ter! Isso aguça o foco para um problema que antecede as demais análises: a fragilidade na compreensão do que seja o Ciclo da Alfabetização. Será que você sabe o que é o Ciclo?
No dia 15 de fevereiro, bem no início do BLOG, fiz uma primeira postagem tentando abordar o assunto e, para tal, pedi que a Aricélia Nascimento, Assessora Técnica em Assuntos Educacionais da Coordenação Geral do Ensino Fundamental do MEC, mandasse uma pequena contribuição, que reproduzo aqui:
"O ciclo de alfabetização nos anos iniciais do Ensino Fundamental é um tempo  sequencial de três anos, ou seja, sem interrupções, no qual se considera, pela complexidade da alfabetização, que raramente as crianças conseguem construir todos os saberes fundamentais para o domínio da leitura e da escrita alfabética em apenas 200 (duzentos) dias letivos. No Ciclo concebe-se que o tempo de 600 (seiscentos) dias letivos é um período necessário para que seja assegurado a cada criança o direito as aprendizagens básicas da apropriação da leitura e da escrita; a consolidação de saberes essenciais dessa apropriação; o desenvolvimento das diversas expressões e o aprendizado de outros saberes fundamentais das áreas e componentes curriculares, obrigatórios, estabelecidos nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental de Nove Anos". 
E o que os municípios disseram em seus questionários sobre isso?
O trabalho referente ao Ciclo da Alfabetização proporciona às crianças maiores oportunidades em vivenciar situações específicas de letramento e alfabetização, é um processo de aquisição da escrita mediado por textos de diversos gêneros em situações reais de leitura e escrita, tais como ocorrem no seu meio social, ex: leitura de um manual para montar um brinquedo ou aprender as regras de um jogo. Para tanto, quando ainda não dominam o código escrito, necessitam de um leitor experiente, no caso, o professor. Portanto, o ciclo de alfabetização vai além do domínio do código escrito, pois as crianças vivenciam na escola um ambiente rico em experiências de leitura e escrita que as motivam a ler e escrever no início do 1º ano do ensino fundamental os textos que circulam no seu cotidiano. Ao final do 3º ano, além do domínio da base alfabética da escrita, estarão aptas a produção de pequenos textos com autonomia [Martinópolis – com ciclo consolidado – SP].
O Ciclo da Alfabetização dá ênfase na alfabetização, aumenta o tempo pedagógico, proporciona a aprendizagem significativa, tem como foco a alfabetização/letramento (a linguagem oral, escrita, produção de textos e a diversidade de gêneros textuais), práticas inovadoras obedecendo o clico de alfabetização dos 6 aos 8 anos. [Jupi – com ciclo consolidado – PE].
As principais razões que levaram a rede de ensino de Amargosa a adotar o Ciclo de Aprendizagem (Ciclo de Alfabetização) foram: proporcionar a re-organização curricular, re-significação da avaliação, re-definição dos tempos e dos espaços escolares, re-olhar para as concepções de conhecimento, aprendizagem, didática, professor (sujeito do ensino) e aluno (sujeito da aprendizagem), bem como significativa formação permanente dos educandos e real gestão democrática da unidade escolar [Amargosa – com ciclo consolidado – BA].
O trabalho com a alfabetização não se trata mais de um processo de decodificação de códigos, de reconhecer e compreender símbolos. Mas sim de um processo de construção de saberes, explorando um conjunto de práticas que detonam a capacidade de uso de diferentes tipos de textos. É uma proposta em que se leva em consideração o que a criança pensa sobre a escrita e o que ela precisa saber para dar forma ao seu pensamento e evoluir. O contato com o mundo letrado acontece muito antes das letras, por isso esses conhecimentos trazidos pelos alunos precisam ser considerados, analisados e aproveitados para servir como base à atuação do educador [Pinheiral – com ciclo consolidado – RJ].
Assim, grosso modo, podemos considerar Ciclo da Alfabetização toda a experiência de alfabetização/letramento que envolve a criança durante seus três primeiros anos do Ensino Fundamental, de maneira intencional e processual, respeitando os ritmos de produção de conhecimento de cada educando, sem retenção ou novo nivelamento, mesmo que nominada de outra forma.
Mas encerro a postagem de hoje com uma questão: será que a não retenção deve ser um a priori isolado, ou uma consequência de um trabalho mais amplo no Ciclo? Qual é a diferença entre a proposta de progressão continuada intrínseca ao Ciclo, e a aprovação automática?
Escrevam suas experiências e posicionem-se nos “comentários” sobre isso... E semana que vem eu trago mais dados para nosso debate!! =)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Criança o dia todo na escola?! É tudo de bom!!! – compartilhando a experiência de Coronel Fabriciano


Perdoem-me o “sumiço”, mas o corre-corre por aqui ainda está grande. Tudo indica que, finalmente, vou poder voltar a me regrar um pouco mais e sistematizar postagens semanais aqui neste BLOG e no Repensando Museus... Ai, ai...Tomara!! =)

Bem, o último município visitado por mim para a consultoria sobre o Ciclo da Alfabetização foi em MG – Coronel Fabriciano, no Vale do Aço mineiro. Assim como nos demais municípios visitados, a jornada de trabalho lá também foi bastante puxada. Comecei com grande atraso de voo, perda de conexão, necessidade de mudança de planejamento... Mas nada afetou o carinho do acolhimento de toda a equipe da Secretaria, destacando-se a Álen Carla, Gerente Pedagógica com quem mantive contato durante a pesquisa, e toda a atenção dispensada pela Secretaria Municipal de Educação, Glória.

Logo em nossa reunião inicial fica clara a concepção de infância como tempo alargado, que inclui as meninas e meninos até seus 10 anos de idade, bem como uma perspectiva de educação infantil não preparatória, mas que não se furta a favorecer experiências diversas e plenas de significação às crianças. Contam-me, também, que desde 2000 implantaram o sistema de Ciclos de Temporalidades Humanas (Infância/ Pré-Adolescência/ Adolescência) como forma de estruturação da rede.  Neste município mineiro, visitei duas escolas: a EM Said Albeny e a EM Dom Lélis Lara.

Merece destaque nesta narrativa que a rede pública municipal de Coronel Fabriciano comporta 14 escolas, das quais 12 já oferecem 45h/semanais às crianças, com 4 refeições e atividades que vão desde oficinas de apoio em várias áreas, como ainda dança, percussão, karatê etc. Mas não imaginem que se trata de “dancinha ou musiquinha para criancinha”... Nem pensar!! Falo de um trabalho sério e comprometido, com bons profissionais – tive o privilégio de assistir a algumas apresentações emocionantes e contagiantes!!


A proposta municipal já se estruturava na crença de que o turno estendido era importante para as crianças e, aos poucos, o município ia equipando suas escolas. Com a verba do Programa Mais Educação, do Governo Federal, essa proposta de horário integral tomou ainda mais impulso, e se consolidou de forma a poderem qualificar e ampliar aquilo que já estava sendo oferecido.

Segundo o depoimento de professores deste município, o tempo integral aumenta a autoestima das crianças; e, da minha parte, atesto ter sido muito interessante presenciar meninas e meninos que no turno da manhã estavam enfrentando dificuldades de aprendizagem nas salas de aula, de tarde estarem brilhando à frente da percussão e/ou da dança. Ainda segundo estes professores, a elevação da autoestima já aponta reflexos positivos no envolvimento e rendimento pedagógico do alunado.

Pais do turno integral de Coronel Fabriciano também deram depoimentos muito favoráveis, afirmando que o temor inicial com a sobrecarga de tempo se esvaiu rapidamente diante do encantamento e alegria expressos pelas crianças e evidenciados por seu desejo de participação. Famílias e escolas confirmam que a evasão e o absenteísmo infantis caíram drasticamente. Este é o desafio! Potencializar conjuntamente as intervenções, sempre em prol das crianças.

Por fim, puxando a brasa para a questão do acesso à leitura, a EM Said Albeny, se antes tinha uma Biblioteca, com o Programa Mais Educação pode oferecer um espaço mais acolhedor e dinâmico, com melhor infraestrutura – e, consequentemente, crianças e adultos têm mais acesso à literatura, livros de pesquisa e estudo, e ao universo letrado em geral.


Livros escritos e ilustrados pelas crianças também ficam orgulhosamente dispostos nas paredes.

Além disso, desenvolvem o projeto Literarte, que disponibiliza livros em espaço aberto, debaixo de uma escada, para as crianças lerem durante o recreio.

O incentivo à leitura, aliás, é perceptível mesmo em escolas cujas bibliotecas não são tão sofisticadas, como é o caso da EM Dom Lélis Lara. Também na hora do recreio dispõe revistinhas e livros menores pendurados em árvores para deleite de seus pequenos leitores.


O município de Coronel Fabriciano também deve ser destacado como aquele que muito vem se empenhando na inclusão de crianças especiais, bem como no atendimento às diferentes dificuldades de aprendizagem – mas isso já requer outra postagem! =)

terça-feira, 26 de junho de 2012

Lugar de livro (também) é no fogão! – partilhando a experiência de Dois Irmãos do Tocantins

Calma, gente! Não se trata da fogueira da inquisição!! Ao contrário! Falo do desejo de disponibilizar livros de literatura infantil às meninas e meninos de uma escola de um assentamento, distante duas horas de caminhão do centrinho da cidade deste município rural de pouco mais de 7 mil habitantes.
Bem, cabe contextualizar, não é? Vocês estão acompanhando minhas viagens para a realização da consultoria para o MEC, via UNESCO, para identificar como estão instalados/ consolidados os Ciclos da Alfabetização em território nacional. Por conta do acúmulo deste trabalho, na reta final nem consegui compartilhar com vocês o que vi/ vivi por aí afora... Mas agora encerrei a empreitada, apresentei relatório final, e estou com mais tempo para poder postar tantos aspectos interessantes sobre alfabetização/ letramento no Brasil. Bem, mas antes de entrar nos pontos mais específicos da pesquisa, ainda vou postar hoje sobre minha ida à Dois Irmãos do Tocantins e, em seguida, a visita à Coronel Fabriciano, em MG. Depois, então, aos poucos, vou trazendo à luz as descobertas e questões tão importantes que surgiram na pesquisa.
De Palmas para Dois Irmãos do Tocantins foram quase 6h de ônibus. Ali me aguardava a doce Marisa da Glória, pessoa atenta e comprometida com a causa, responsável pelas respostas aos questionários destinados à Secretaria de Educação e com quem mantive contato ao longo da pesquisa. Ela é Gestora Educacional deste lugar que tem um total de 12 escolas, das quais 11 atendem ao EF e 10 são rurais, trabalhando com turmas multisseriadas.  Dali partimos diretamente para a primeira escola visitada, EM Aurélio Buarque,  no assentamento Projeto Salomira – escola com 3 salas de aula: uma de 1º ano; uma de 2º e 3º anos; e outra para 4º e 5º anos. No Ciclo da Alfabetização (englobando 1º ao 3º anos) estudam 28 crianças ao todo.
Bem, e o fogão? As salas visitadas têm “cantinho de pesquisa interdisciplinar”...
 e “cantinho de leitura” e, numa delas, este último era organizado sobre um fogão, delicadamente coberto com TNT. Os livros chegam através do Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE) e as crianças leem!! =)

A escola não tem iluminação adequada, seu mobiliário está deteriorado, mas as crianças estão tendo acesso a livros de qualidade! Claro que não podemos cair na armadilha de defender, com isso, que não precisamos melhorar os demais aspectos, uma vez que disponibilizam livros para as crianças... Mas também acho importante ressaltar que, embora todas as (injustas) faltas, professor@s (esta escola não tem diretora, ou equipe pedagógica) tiveram a sensibilidade e perceber a importância da leitura para os meninos e meninas – e isso é lindo!
No dia seguinte, visitei a EM Nova Geração, na Fazenda São João, também distante quase duas horas do “centrinho”. Com mais estrutura – tanto de equipe, quanto física – que a anterior, esta escola atende a 14 crianças no Ciclo da Alfabetização, trabalhando um grupo aglutinado de 1º ao 3º anos do EF.
Ali o “cantinho da leitura” também assume importante papel e procura oferecer um espaço de acolhimento às crianças.
Mais do que isso, pegaram um ex-quarto para professor e estão transformando numa biblioteca,...
... pois além dos livros de literatura infantil dispostos no “cantinho da leitura”, a escola recebe inúmeros livros para professores, jogos pedagógicos e outros tantos materiais e, por isso, estão empenhados em favorecer o acesso das meninas, meninos e adultos a tudo.
  


A certeza que paira é de que um livro fechado é um livro morto – somos nós, leitores, que damos significação àquilo que está ali escrito. Portanto, ter acesso aos livros de qualidade é direito de tod@s; e favorecer este acesso é uma das obrigações da escola.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Lá fui eu para Petrolândia, em PE, às margens do Velho Chico!

A paisagem do sertão ia se descortinando pouco a pouco. Na ida, o entardecer que tinge o céu sem nuvens de seus tons alaranjados e róseos cede lugar à noite, marcada pelo fino contorno da lua, que mais parece o sorriso do gato da Alice no País das Maravilhas.
Na volta, a manhã clara e ensolarada me deixa ver a vegetação árida e contorcida, os cabritos, as cisternas de coleta de água pluvial, os cactos. Foram 16h de ônibus para ir e voltar à Petrolândia, cidade de 32 mil habitantes, às margens do belo e imponente Rio São Francisco.
Na manhã de 2f, dia 23 de abril, eu já estava na Secretaria de Educação reunida com Romélia – a Coordenadora do Programa Alfabetizar com Sucesso – e mais 10 supervisores e coordenadores que compõem sua equipe. A Secretária, Maria do Carmo, também participou da parte final do encontro. Como nos demais municípios visitados para esta consultoria, o objetivo da reunião foi apresentar a pesquisa, esclarecer pontos do questionário por eles respondido, em diálogo com os índices demográficos do município e, sobretudo, ouvir suas angústias, sucessos, estratégias etc. sobre o Ciclo da Alfabetização. A segurança da Romélia em suas argumentações e a confiança que inspira em sua equipe merecem destaque.
Ainda pela manhã iniciei a visita à Escola Municipal José Araújo da Silva, conversando com a equipe gestora sobre a proposta de trabalho e sobre o questionário por elas respondido. Em seguida, circulei pelas 8 salas de crianças de 1º ano 3º anos do EF. Por adotarem o Programa Alfabetização com Sucesso do Instituto Ayrton Senna (IAS), a rotina das turmas é bastante igual, embora a conversa com as crianças abra sempre uma perspectiva inaugural, bem como a atuação dos professores seja sempre diferenciada em algum aspecto.

Nesta manhã, por exemplo, coube a mim coroar o Rei e a Rainha do Soletrando 2012 – uma brincadeira bem animada que estava sendo desenvolvida em uma das turmas observadas, despertando a curiosidade e o envolvimento de todas as crianças.


No fim da tarde, além de visitar mais 2 grupos de meninos e meninas do 3º ano, fiz a atividade com as crianças de uma turma de 4º ano, contando a história do livro CARTAS ENTRE MARIAS: uma viagem à Guiné Bissau (com texto meu e fotos de Virgínia Yunes, editado pela Ed. Evoluir Cultural – veja mais detalhes no Blog).
De noite foi realizado um encontro com cerca de 100 professor@s no Auditório da Escola Municipal Dr. Francisco Simões de Lima, quando procurei esclarecer alguns pontos sobre a minha visita, e ainda preocupei-me em ouvi-los em suas experiências. Bem participativ@s, levantaram algumas questões sobre o Ciclo da Alfabetização, e outras tantas que eram específicas da opção pelo Programa do IAS adotado pelo município em consonância com o Governo Estadual.
Na 3f cedo, a visita foi na Escola Municipal 1º de Maio – com menos turmas do que a anteriormente visitada, esta escola também mostrava os mesmos cuidados com o espaço físico (a hortinha e a plantação de milho são um destaque!),...

... e ali também a equipe pedagógica mostrou-se não só acolhedora e comprometida, como especialmente aberta ao diálogo e disposta a desenvolver o melhor trabalho possível com as crianças. Na visita às turmas de 1º ao 3º anos do turno da manhã, pude presenciar uma brincadeira na qual uma turma estava animada e envolvida, preocupando-se coletivamente com a inserção de uma das crianças, portadora de necessidades especiais – lindo exemplo de inclusão que se repetiu quando fui observar as propostas desenvolvidas neste grupo em sala de aula.
Naquela tarde, voltei à EM José Araújo da Silva, onde fiz mais dois momentos de atividades com as crianças do 4º ano, nos moldes da véspera.
De noite, como última etapa da visita ao município, um encontro com as famílias, novamente no auditório da EM Dr. Francisco Simões de Lima. Foram mais de 80 mães, pais, tias, avós (e mais de uma dezena de crianças!) dando seus depoimentos – todos positivos! – sobre a aprendizagem das crianças no Ciclo da Alfabetização.  A reunião também se mostrou oportuna para a discussão de outros pontos específicos do funcionamento do Programa do IAS – como o “para casa”, ou a quantidade e dificuldade de alguns conteúdos – ou ainda para a reivindicação de questões outras, como a imposição de limites às crianças na escola, matrículas, relações professor-aluno, mais aulas de arte etc.: todos pontos prontamente respondidos por Romélia.
AINDA RESTA DIZER:
Silvinha, como todos a chamamos, já me esperava no aeroporto com seu sorriso e olhar sempre doces e acolhedores. Maravilha chegar a Recife e poder ficar na casa dessa amiga querida, da mesma forma que foi ótimo quando fiquei na casa da Adri em Porto Alegre. Quem tem amigas assim, tem tudo, né? E foi depois de uma deliciosa manhã de passeios por Olinda com Silvinha, com direito a comprar biscoitinhos no convento, que embarquei rumo ao até então desconhecido para mim: o sertão pernambucano.
O cansaço da longa viagem foi amenizado de imediato pela acolhida carinhosa e generosa de Sydcleide – Diretora de uma das escolas que eu iria visitar, que me convidou, mesmo sem me conhecer, para eu ficar em sua casa, junto com sua família: Roberto Carlos, seu marido; Ana Clara e  Antonio, seus dois filhos fofos. Mas esse núcleo se amplia com sua mãe e seu pai, que moram ao lado, e diariamente nos visitam e levam leite fresco, tirado das vaquinhas do curral; com sua irmã, cunhado e sobrinhos – sobretudo o gorduchinho Sergio – também vizinhos, que vêm sempre conversar; e ainda por Preta, cuja gentileza, sorriso e temperos ficarão para sempre na minha memória.
Tenham certeza de que nada do que eu escreva aqui será suficiente para expressar minha gratidão pela acolhida em sua casa nesses dias de trabalho puxado em Petrolândia. A vocês, os meus maiores e mais sinceros agradecimentos!

domingo, 22 de abril de 2012

Conhecendo LAJEADO, no RS!

Os três dias anteriores tinham sido de virada – cercada de Daniela, Ariane e Adriana, fechava as tabulações dos inúmeros questionários para a elaboração do segundo relatório parcial da pesquisa. Assombros positivos e negativos eram partilhados em voz alta na mesa de jantar que acolhia a todas.
Fim da tarde de domingo, dia 15 de abril, chegava a hora de partir. Destino: Lajeado, no RS – município que representaria a Região Sul na pesquisa que coordeno dentro da consultoria sobre os Ciclos da Alfabetização. O voo era para POA e na manhã de 2f, um ônibus para Lajeado.
Chegar na rodoviária de Lajeado e ser recebida por Sr. João (que todos chamam de Chico) já foi incrível! Simpático, falante, ensaiava palavras em Espanhol e Alemão – hilário! Adriana Ganzer foi comigo e fomos levadas diretamente para a Secretaria de Educação, onde conheci as Coordenadoras Roseli (com quem trocava correspondências e telefonemas) e Vanessa, e a Secretária de Educação, Rejane.  Assim como na Região CO, nosso encontro visou explicitar a pesquisa e, sobretudo, ouvir suas falas sobre o Ciclo, vantagens, dificuldades, estratégias de superação etc. Também aproveitamos para conversar/debater sobre as respostas dadas aos questionários e, ainda, sobre os índices demográficos educacionais do município.
Almoçamos e partimos para a EMEF Capitão Dieter, numa zona mais rural. Escola pequenina, com poucos alunos, que impressiona pelo cuidado, limpeza e organização. Inicialmente me sentei com a equipe gestora para conversar sobre o projeto e ouvi-los sobre a escola, sobretudo tirando dúvidas sobre o questionário enviado. Em seguida fui conhecer a sala que atende, juntas, as crianças do 1º ao 3º  ano do EF. Ótimo encontrar brinquedos e todo o material ao alcance dos meninos e meninas do grupo!

Às 18:30h nos reunimos na Secretaria de Educação com o grupo de cerca de 25 professores e equipe pedagógica das cinco escolas municipais que adotam o sistema de Ciclos de Formação Humana. Ali também a proposta foi ouvi-los em suas angústias, vitórias, sugestões... Muito participativos, trouxeram importantes contribuições à investigação.
No dia seguinte, fomos recebidas cedo na EMEF Guido A. Lermen, onde passei o dia inteiro.  
Começamos também com uma conversa informal e esclarecedora junto à equipe gestora e partimos para a visita de observação das turmas de educação infantil / 1º ano (que trabalham juntas); e do 2º e 3º anos do EF. Nesses momentos, procurei observar as crianças em atividade, conversar com elas e com @s professor@s, observar a organização dos espaços e materiais etc. Também aqui a presença dos brinquedos, da autoria e da identidade das crianças chama atenção nas salas de aula! Que coisa boa, minha gente!!!

Nesta escola desenvolvi, ainda, a proposta de narração de história e escrita de cartas para as crianças do 4º ano, que no turno da tarde estavam juntas das do 5º ano (em breve publicarei as fotos no BLOG do Cartas entre Marias).
As duas escolas visitadas têm bibliotecas bem montadas e acolhedoras, que favorecem o interesse das crianças pela literatura...
Escola Guido
Escola Capitão
Nesta segunda noite, encontrei-me na Secretaria de Educação com um grupo de cerca de 25 pais e mães das crianças do Ciclo da Alfabetização das cinco escolas da rede organizadas em Ciclo. Foi muito legal ouvi-los e perceber o quanto aquele grupo está envolvido e comprometido com o trabalho desenvolvido pelas escolas...!
Na 4f às 7h, parti para a rodoviária e segui para Porto Alegre. De lá, tomei um avião para São Paulo, onde participei da noite de premiação do Programa Pelo Direito de Ser Criança, da UNILEVER – mas aí já é outra história! Conto em outra postagem... =)
Notinha de rodapé: no sábado, dia 21/4, sigo de SP para Recife – Região NE, aqui vou eu!!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

JACIARA – e lá fui eu!!

O despertador tocou às 4:15h de 2f, dia 9 de abril. Mochila e sacola prontas, rumei para o aeroporto de Floripa a fim de iniciar a peregrinação aérea e terrestre até Jaciara, no sul de Mato Grosso, onde cheguei às 14h (hora local – para mim, já eram 15h!).
Carinhosamente recebida na rodoviária por Wanderlucy e Sr. Manoel, deixamos as coisas no Hotel e seguimos para a EM Maria Villany Delmondes para um primeiro “reconhecimento de terreno” e, de lá, fomos para uma reunião na Secretaria de Educação – eram 12 presentes entre Secretária, ex-Secretário, Diretoras de Escola, Coordenadoras... O objetivo era explicitar a pesquisa e, sobretudo, ouvir suas falas sobre o Ciclo, vantagens, dificuldades, estratégias de superação etc. Também aproveitamos para conversar/debater sobre as respostas dadas aos questionários e, ainda, sobre os índices demográficos educacionais do município. Foi um encontro muito intenso e proveitoso!
Às 19h tivemos outra reunião – desta vez no grande espaço da EM Maria Villany Delmondes, carinhosamente arrumado e cedido para tal.
A proposta era reunir professor@s e equipes pedagógicas que atuassem com as crianças do Ciclo da Alfabetização para ouvi-los em suas angústias, suas vitórias, suas sugestões... Diferente disso, apareceram ao todo cerca de 70 professor@s de todos os níveis de ensino – de Educação Infantil às séries finais do Ensino Fundamental – o que, sem dúvida, acabou contribuindo para dispersar um pouco o foco do encontro. Ainda assim, o debate foi interessante e mostrou vários pontos que merecem reflexão futura, sobretudo, a questão central: o que é Ciclo? E as dela derivadas: será o aproveitamento das crianças tão bom nas escolas cicladas, quanto nas escolas seriadas? Como dar conta de atividades diversificadas nas salas? - entre outras. A equipe gestora da escola foi incansável em abrir o espaço e me facultar acesso a tudo! Aliás, foi a boa prática do registro permanente que favoreceu isso...

No dia seguinte, a jornada começou às 7h, com visita de observação à EM Maria Villany Delmondes,
Além da proposta de narração de história e escrita de cartas para as crianças do 4º ano (ver detalhes no BLOG Cartas entre Marias), também percorri todas as turmas de 1º, 2º e 3º anos, tanto da manhã, quanto da tarde, totalizando 10 turmas do Ciclo da Alfabetização. Nesses momentos, observava as crianças em atividade, conversava com elas e com @s professor@s, observava a organização dos espaços e matérias etc. Vi como estavam caminhando as propostas diversificadas; como era o processo de avaliação diagnóstica e permanente; como as crianças de diferentes níveis de aprendizagem ajudavam umas às outras, entre outros aspectos relevantes.
Na noite deste segundo dia, foi feito um convite às famílias das crianças do Ciclo da Alfabetização de todas as escolas da rede a fim de trocar ideias sobre a relação família-escola. A adesão foi de mais ou menos 70 adultos e outras tantas meninas e meninos. As angústias de uns eram, muitas vezes, respondidas pelo relato de experiência de outros... Será que as crianças que estão indo adiante sem terem cumprido todos os objetivos no primeiro ano vão mesmo ser capazes de conseguir isso até o final do terceiro? - exemplo de pergunta que acabou sendo respondida pela depoimento de uma mãe de duas crianças gêmeas, cujos resultados no primeiro ano tinham sido bem diferentes e que, hoje no terceiro, já estão igualmente lendo e escrevendo se dificuldades... Será que a não reprovação não desistimula as crianças nosestudos? E mais uma vez a curiosidade infantil foi resaltada, bem como seu desejo de querer saber, mais e mais... Foi muito bacana a participação de mães, pais, avós no debate!
Na 4f às 7h, parti para a última manhã de visitas – desta vez fui conhecer o espaço, os materiais, @s professor@s, equipe gestora e as crianças do 1º e 2º anos da EM Amélia Freire Gomes, que implantou o horário integral de 8h/dia. Foi bom ver que criaram um espaço coletivo de maior acolhimento e incentivo à leitura!
Em seguida, fui para a EM Magda Ivana, já na periferia, quase zona rural, para conhecer o trabalho desenvolvido com o Programa Mais Educação, com o Programa UCA (Um Computador por Aluno) e, mais uma vez, conhecer as crianças, @s professr@s, materiais e espaços físicos das turmas da manhã de 1º, 2º e 3º anos. Uma pena saber que vários pais que foram indicados participar do horário integral com o Programa Mais Educação acabam não levando seus filhos...

No final da manhã, um presente! Fui brindada com um delicioso almoço na Cozinha Única, com um cardápio para lá de especial! Um prato típico do MT chamado “Maria Isabel” (!!) – delícia pura!! Grande parte da equipe gestora me acompanhou neste momento de despedida e comecei, a seguir, o périplo de volta, chegando quase 1h da manhã em Floripa...
Obrigada a tod@s pela abertura ao diálogo e pela acolhida! =)